PINTEREST

segunda-feira, 12 de julho de 2010

NA VITROLA

O quarto era de apertamento, mas de classe metida. Mesmo assim, dividia o banheiro com o quarto ao lado. Ficava no 17º andar, bem no canto do prédio, de modo que recebia o sol da manhã. Tinha um armário embutido, com portas em perfis de alumínio e acabamento em Formica, imitando cerejeira. Ia do chão ao teto, o que não é grande coisa. Dois metros e quarenta, no máximo. A porta de entrada tinha um nicho só para ela, formado pela profundidade do armário embutido. A cama, encostada na parede oposta, fazia parte de um móvel maior que continha gavetas, como se cômoda fosse.
Valéria sentou no carpete apoiando as costas numa das portas do armário. Dobrou a perna esquerda, deixando a outra esticada. André pegou o violão e sentou na cama. Apoiou o instrumento, displicente, na coxa direita que cruzara sobre a esquerda. Entreolharam-se. Ela, tirando um saquinho de um dos bolsos, perguntou: “tem seda?”. Para sua surpresa, junto com os primeiros acordes, André balançou a cabeça para um não. Guardado o saquinho, a música ia pela metade, quando Valéria esticou seu pé um pouco mais para tocar o do André. Bastou. Em minutos estavam despidos, rolando pelo chão, chutando violão, armário e relógio. Agradável fusão adolescente, de hormônios, líquidos e cheiros.
Após os atos, ainda despidos, sentaram-se no colo um do outro, colando os troncos e se abraçaram. De modo que o beijo foi longo, suado, com direito a um pedaço do céu. Ela foi tomar banho enquanto ele foi checar o ambiente. Não sabia quanto tempo tinham levado naquela suposta aula de violão. A mãe tinha saído e a empregada devia estar passeando o cachorro, portanto ele não precisaria explicar o banho da professora. Valéria não tinha nada de professora e, quando muito, tocou flauta uma ou duas vezes no primário. Mas, como a estória da professora colou, disso sobrava uma grana, que dividiam felizes. A Valéria era doida, isso sim. Pirava a cabeça do André, de dois em dois minutos. Inventava coisas, mudava de opinião, trocava de roupa e de ônibus. Isso quando não trocava de roupa dentro do ônibus, entre um ponto e outro. Depois descia. André passava maus bocados.
Assim que a empregada chegou, desceram com uma desculpa daquelas ditas rapidamente, sem fôlego, que a empregada certamente não saberia repetir quando perguntada. Algo como uma senha para a liberdade. No caminho do cinema pegaram seda na padaria da esquina. Esperando, no ponto da Diógenes Ribeiro de Lima, André lembrou ter deixado a carteira do colégio sobre a tampa da vitrola. A liberdade tem seu preço uma vez que não poderia voltar até o apartamento. A esta altura sua mãe já estaria de volta e o cinema com a amiga deixaria de existir. Ia ter de pagar inteira ou jantar com os pais.
“Que vitrola?”... tá lôco?! ... é toca disco (rindo e pulando)
“Como, que vitrola... do lado da cama... as gaveta!”.
Sobre aquele móvel ficava a vitrola Garrard com duas caixas acústicas, tudo interligado por um amplificador Gradiente. Cada coisa de uma cor, de um tamanho, comprada em ocasião diferente. Ela quis ver: “Depois do filme....”, “Não, agora!”
 
ORIGINALMENTE  AQUI

IMAGEM: INTERNET DO PLEISTOCENO OU QUATERNÁRIO DA ERA CENOZÓICA (menos...)

2 comentários:

Daniel Og disse...

rapaz,
eu me lembro desse episódio da animal. pior é que por trás dessa revista eu também tenho uma história.... pra voce ver.
na época que essa historia saiu meu colégio fez uma escursão na bienal de livros aqui do rio e quase todos os moleques da minha turma roubaram um exemplar dessa revista.
deu uma merda fodida e na saída da feira todo mundo teve que abrir a mochila pra ver quem tinha roubado.
alguns conseguiram sair de lá com a revista entocada em algum outro lugar. eu não fui um desses.
abraço!

Gláuber disse...

TEM POSTAGEM CRUZADA COM ESSA NO EXPLIQUE ISSO! www.expliqueisso.blogspot.com