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quarta-feira, 31 de março de 2010

A REVOLUÇÃO DE 64

Eu já ia para o Primário (início do que hoje chamam Ensino Fundamental) quando o Brasil virou de ponta cabeça. Na época, a mim encantaram os tanques nas ruas. Até aqueles dias jamais havia visto um. Pouco tempo depois comecei a sentir as mudanças. Minha mãe, estrangeira e imigrante, passou a estocar comida em casa. Meu pai fez o mesmo com dois tambores de gasolina (uma insensatez necessária, como me explicou anos depois). Meu tio tratou de sair do país por uns tempos. O Guarda Civil da esquina da minha escola deixou de velar pela nossa travessia, assim sem mais nem menos, de um dia para o outro. Um professor deixou de sê-lo... Poucos anos depois veio a compreensão de tudo. Veio o AI-5 e tudo o mais que a esta altura do campeonato é história. Eu e meus amigos crescemos assim. Quando crianças achando Tanque legal, EXPOEX o máximo, na adolescência sendo revistados a cada volta, a cada esquina... e como jovens a fugir da polícia respirando gás lacrimogênio nas ruas do Centro paulista. Amadurecemos enquanto a "revolução" apodrecia. Para quem tem paciência e curiosidade recomendo "De Getúlio a Castelo" de Thomas Skidmore e, depois, os quatro volumes carinhosamente escritos por Hélio Gaspari (A Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Encurralada e A Ditadura Derrotada). Há muitos outro livros, é claro, mas com estes a pessoa não passa mais vergonha em roda de conversa... É claro que não é nada para se orgulhar, mas para conhecer e JAMAIS PERMITIR QUE SE REPITA. 

PS: a primeira imagem eu não sei de quem é... tirei DAQUI. As outras duas são de livros meus.
PS2: hoje, 31 de março, é a data fatídica. Quando criança, chegou a ser feriado...

terça-feira, 30 de março de 2010

PEQUENOS ASSASSINATOS

Um belo dia, o cartunista Jules Feiffer resolveu escrever uma peça de teatro. Encenada em 1967, durou apenas sete noites em N. York. Montada na Inglaterra obteve mais sucesso e no retorno à América acabou virando filme com Eliot Gould, Alan Arkin, Vincent Gardenia, Donald Sutherland e Marcia Rod. Falo de Little Murders, uma comédia dark, que poucos entenderam. Tratava do mais escuro e escondido íntimo do americano médio e antevia a sociedade violenta e escassa de recursos energéticos que vivemos hoje. Pura carne crua. Foi para as telas de cinema em 1971 e teve uma brevíssima temporada no cine Bijou (Praça Roosevelt - Sampa) em 1974/75 . Felizmente a censura só acordou depois que eu vi. Consegui uma DVD pela Amazon.com e me deliciei em rever esta obra prima de crítica atualíssima e mordaz.

segunda-feira, 29 de março de 2010

A MORTE DE VIRGINIA WOOLF


"Não sei ao certo se o TIMES já terá anunciado a essa altura que Virginia desapareceu. Temo que não haja a menor dúvida de que ela se afogou por volta do meio dia da sexta-feira da semana passada. Deixou cartas para Leonard e Vanessa [seu marido e sua irmã, respectivamente]. Sua bengala e pegadas foram encontradas à beira do rio.
Durante alguns dias, é claro, continuamos a esperar, contra toda a logica, que ela tivesse simplesmente saído em uma caminhada sem rumo, e que viria a ser encontrada em um celeiro ou em uma loja de aldeia. Mas perdemos toda a esperança; no entanto, porque seu corpo não foi encontrado, ela não pode ser considerada legalmente morta.
Ficou claro, algumas semanas atrás, que ela estava prestes a sofrer mais um daqueles colapsos nervosos longos e agonizantes, dos quais já tivera vários. A perspectiva de dois anos de insanidade, para então despertar para o tipo de mundo que outros dois anos de guerra criaram, foi tal que não posso ter certeza de que ela tenha sido insensata."


[Carta de Clive Bell para Francess Partridge, sobre o desaparecimento de Virginia Woolf, em 3 de abril de 1941]
FONTE: FOLHA DE SÃO PAULO
IMAGEM: Brooklynmuseum.org

domingo, 28 de março de 2010

EMERSON FITTIPALDI

Quem sabe sabe... é tão bom que vira selo na terra de Niki Lauda. 

Emerson foi Bi-Campeão Mundial de Formula 1, Campeão de Formula Indy, Bi nas 500 milhas de Indianápolis, duas vezes vencedor do Grande Prêmio Brasil de Formula 1 e mais umas trocentas e doze vitórias nas mais diversas categorias das quais participou.

sábado, 27 de março de 2010

HORA DO PLANETA



HORA DO PLANETA, NÃO SE ESQUEÇA: É HOJE. ACOMPANHE A CONTAGEM REGRESSIVA AI AO LADO.


Tardesdemais  @earthhour I created a lantern to show my support for Earth Hour. Create one at http://www.earthhour.org/lantern/
 

CASA MODERNISTA - 80 ANOS

O Museu da Casa Brasileira (MCB) inicia hoje (27) a atividade “Visita guiada Warchavchik” à casa modernista da rua Itápolis, no bairro do Pacaembu, em São Paulo (SP). Ali, foi aberta a exposição “Modernista 80 anos” nesta sexta-feira (26), mesma data em que inaugurou em 1930 a “Exposição de uma Casa Modernista”.
No MCB, haverá duas maquetes: a da casa da rua Santa Cruz e, outra, do interior da casa da rua Itápolis, recriando a ambientação da exposição de 1930, ambas cedidas pela Pinacoteca do Estado. Em fotos, pode-se ver a casa modernista com sua arquitetura e paisagismo originais; a festa de inauguração com a presença de Mina Klabin, Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Guilherme de Almeida; a decoração da casa com peças como pinturas de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Lasar Segall, escultura de Victor Brecheret, móveis e luminárias desenhadas por Warchavchik e tapetes do período Bauhaus. Também haverá um catálogo da exposição de 1930 e fotos de outras casas projetadas pelo arquiteto Warchavchik, como as da rua Bahia e rua Santa Cruz, ambas em São Paulo, e da rua Toneleros, no Rio de Janeiro (RJ).
História pura, ao vivo e a cores. Pode respirar que faz bem.
Falando nisso, não deixe de dar uma banda a pé por Sampa. Sempre tem algo de bom para se ver.

Bom sabado a todos!!

acesse, conheça, aprecie:
http://www.museudacidade.sp.gov.br/index.php

quinta-feira, 25 de março de 2010

ERA UMA VEZ...

Hoje vamos conhecer uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Norte. Não vou lhes dar o nome, pois me foi pedido encarecidamente para que não divulgasse detalhes que pudessem atrair gente. Primeiro, a população local não é muito chegada em levas de forasteiros curiosos. Gente que venha de fora, para passear ou visitar, certamente será bem recebida. Agora, se for para fofocar e bisbilhotar, ai a coisa vai pegar. Segundo, recebi telefonemas do Prefeito, do Presidente da Câmara de Vereadores e até do Sr. Padre, todos neste sentido. Terceiro, até uma moça muito simpática e bonita, moradora local, me mandou uma carta, na qual desculpou-se, mas insistiu que eventuais divulgações dos acontecimentos passados não poderiam dar nenhuma pista dos envolvidos ou do município, posto serem, hoje em dia, todos, pessoas de bem, estabelecidas na região e com famílias para cuidar. Não ia ficar bem uma eventual divulgação de seus nomes. A verdade verdadeira é que o que vai aqui ser narrado pode até ser lenda, mas por via das dúvidas é bom que de alguma maneira o caso seja registrado, até para estudos sociológicos e históricos, mesmo porque eventuais estudos histéricos já devem ter sido feitos e, portanto, desses não vamos tratar.
Mas, como dissemos, sem mais delongas, vamos conhecer o tal município e sua peculiar sucessão de acontecimentos.
Estamos na década de 50 do século XX. Estabelecido o marco temporal, não vamos dizer nem o ano nem o mês, para dificultar levantamentos e outros tipos de atitudes não combinadas préviamente. Então... nesta época, os jovens tinham poucas atividades lúdicas e ainda não havia chegado nenhum canal retransmissor de televisão na região. Era um outro Brasil, por assim dizer. Naqueles dias, o que se podia fazer era trabalhar pesado, rezar, passear em redor da praça, isto só aos domingos, e jogar bola aos sábados. Um fazendeiro local mandou roçar uma área na qual fizeram as marcas de cal e instalaram as traves. Às vezes vinha até um time de fora para duelar com os locais. Alguns destes “derbis” ficaram famosos até na Capital, não só do Estado, como também do Ceará, que é ali pertinho. Mas deles não poderemos falar, por óbvia e já explicada razão.
Voltemos ao campo. Na verdade estava em terras do já mencionado fazendeiro, portanto, um pouco longe da cidade em si. Todos os sábados a turma se reunia e caminhavam juntos até lá, para aquelas memoráveis partidas de futebol, algumas das quais até entraram para a história.
Certa manhã, Jesus (nome fictício, inventado de bate pronto, neste minuto), que era um garoto espevitado, meio magrela e mais alto do que a média, saiu mais cedo de casa do que de costume. Meio que perdeu a paciência de esperar os amigos e meio que foi na frente com a certeza de treinar tiros a gol sem ser importunado, de modo que quando os outros chegassem pudesse contar alguma vantagem. Como era também o mais velho da turma, ele levava, sempre, sua enxada muito bem afiada, para eventuais reparos que pudessem se fazer necessários no chão de terra batida daquele lugar. Jesus era o responsável por destruir os chamados morrinhos artilheiros e tapar os buracos de coruja.
Jesus chegou ao campo quase junto com os primeiros raios de sol e levou o maior susto. Tinha um cadáver na grande área, bem na marca do pênalti. Desesperou-se, gritou, pulou e esbravejou. Chegou a chutar o morto e blasfemando perguntou-lhe do porque ter ele, o morto, resolvido morrer logo ali. Será que não tinha outro lugar? Para a sua surpresa o cadáver falou: “Olha, meu filho, se me fosse dado escolher aonde morrer, certamente não seria aqui e sim nos braços de uma bela potiguar...” Jesus, a par de sua estupefação, concordou. O morto tinha razão. O sujeito, não contente em desafiar todas as leis da natureza, continuou: “Veja, a única coisa que lhe peço é um enterro decente, cristão e, tenha certeza, saberei ser grato...” Jesus perdeu a compostura: “Olhe aqui seu sei lá o que, filho do demo ou coisa que o valha, a sua sorte é que estou de bom humor, mas aqui o senhor não vai poder ficar não. Hoje tem jogo e além de ser importantíssimo, o jogo, se é que o senhor me entende, vamos ter de ficar dando explicação para todo mundo. Fora a encheção da Montada.” O morto tentou argumentar, mas Jesus estava irredutível, queria-o fora de lá. Ficaram ali, um olhando para a cara do outro até que o morto, que além de tudo não queria se identificar, teve uma idéia. “Olhe, meu filho, me enterre ali, debaixo daquela trave, na direção do poente, que eu só permitirei gol de seu time e nunca contra vocês.”
Já que tudo estava combinado, Jesus pôs-se a trabalhar para enterrar o cidadão. Fez uma cova rasa e rolou o cadáver para o buraco, tapando-o em seguida.
Quando a turma chegou, Jesus estava suado que nem sei lá o que, e mal havia fôlego para explicar que a terra fofa atrás do gol tinha a sua origem no fato de que ele teve de retirar terra daquele local pois desta feita tinha tido muito buraco de coruja para tapar. Alguns desconfiaram, outros não, e a maioria acreditou no Jesus, pela importância da partida daquele dia. Os outros acabaram se esquecendo da terra fofa no desenrolar da partida e seus gols inusitados.
Durante o jogo tudo transcorreu como fora combinado e o time do Jesus protagonizou uma sonora goleada em seu arqui-rival, do município vizinho. E assim foi durante anos. Primeiro o Jesus entrava em campo junto com seu time e depois ia lá perto daquela trave e rezava, mostrando ao defunto qual uniforme ele deveria privilegiar. Naquelas traves bola adversária não entrava e, portanto, o time só tinha que se preocupar com a defesa em metade do jogo. Em compensação, quando atacavam em direção àquele gol, tudo entrava, até pensamento e cruzamento mal feito. A bola parecia tele-guiada, se bem que, naquela época, disso nem se sabia.
Um dia, muitos anos depois, Jesus recebeu uma carta de um tio seu, chamando-o para a Capital, para ajudar no comércio que estava em expansão. Feliz da vida, sequer lembrou de seu morto predileto e se mandou no primeiro trem. Não ia perder a chance de estudar e de viver numa cidade maior, ainda por cima por ser beiramar, coisa que Jesus adora até hoje.
Os anos foram passando e os jogos de bola ficaram cada vez mais raros até que o campinho foi abandonado. Na década de setenta, ainda por cima, a televisão chegou ao local, mudando hábitos e criando novas necessidades. A cidade cresceu naquela direção e os herdeiros do fazendeiro decidiram pela construção de um núcleo de casas naquelas terras. Nas costumeiras escavações dos alicerces, encontraram a ossada e foi o maior bafafá. Teve imprensa e tudo o mais que cabe nestas ocasiões. Com o passar do tempo, somado à incompetência generalizada do poder constituído e aliado à falta de recursos adequados o caso foi esquecido e arquivado como morte sem solução. Afinal, como bem lembrou o Sr. Promotor da região, sequer se soube se se tratava de crime ou não. A ossada foi removida e, muitos anos depois, acabou numa faculdade de medicina qualquer.
Jesus, hoje, é próspero comerciante e seus netos se deliciam com as suas narrativas dos jogos, dos seus gols inusitados e dos milagres acontecidos naqueles tempos. Suas noras é que não gostam muito do “velho” enchendo a cabeça das crianças com estas estórias absurdas, de feitos heróicos e estapafúrdios. Heróicos do ponto de vista futebolístico, é claro.




Este conto foi escrito a partir de uma idéia original e valiosas contribuições de Gladys Ferreira

quarta-feira, 24 de março de 2010

SOON - YES





Soon oh soon the light
Pass within and soothe the endless night
And waiting for you
Our reason to be here

Soon oh soon the time
All we move to gain will reach and calm
Our heart is open
Our reason to be here

Long ago, set into rhyme

Soon oh soon the light
Ours to shape for all time, ours the right
The sun will lead us
Our reason to be here
The sun will lead us
Our reason to be here

MICKEY GANG




Isso vai dar o que falar. Em Londres já está bombando. Nasceram em Colatina/ES e o mundo já é pequeno. Aqui em montagem bem humorada de NajiNahazRemix...

terça-feira, 23 de março de 2010

Akira Kurosawa - 100 anos

Nascido em 23 de março de 1910, Kurosawa tornou-se um dos mais importantes cineastas do século XX e uma pequena parte de sua obra poderá ser vista na CINEMATECA BRASILEIRA de 23 a  28 de março. Kurosawa, entre outros muitos prêmios, foi ganhador do Leão de Ouro em Cannes (1951) passando a ser conhecido mundialmente. Falecido em 1998 ainda teve um roteiro seu, até então inédito, filmado por Kon Ichikawa. Para a programação completa, oferecida gratuitamente pela CINEMATECA clique aqui

CINEMATECA BRASILEIRA
Onde: Largo Senador Raul Cardoso, 207 - próximo ao Metrô Vila Mariana. São Paulo.
Quando: de 23 a 28 de março
Quanto: grátis

segunda-feira, 22 de março de 2010

VELHAS VIRGENS




Coisa boa, mas muito boa... Velhas Virgens e Velho safado, uma combinação que deu certo, ainda mais aqui, neste filme do Weberson Santiago...

DIA MUNDIAL DA ÁGUA

Será que precisa ficar falando aquele blá blá bléu todo, de que necessitamos, de que sem ela não vivemos, sabe aquele papo sabesp de não desperdício... será? Pois ainda tem gente varrendo calçada com água clorada e fluoretada... Ainda tem gente que projeta e constrói casa e apartamento sem instalar soluções que evitem a descarga de dejetos com água clorada e fluoretada. Ô tesão de jogar dinheiro fora! Ah, tem também gente que lança esgoto sem tratamento em tudo que é curso d'água possível e tem governo que nada faz... Tem gente contaminando lençol freático e, novamente, tem governo que nada faz. Tem gente que deixa água parada criando mosquito vetor de doença... Tem gente, que desde que nasce se esforça para destruir o seu entorno, tem gente que só pensa nela mesma... Tem gente... Tem gente?

PS1: para quem não é de sampa... Sabesp é a Cia Estadual de Abastecimento daqui, que adora fazer propaganda mostrando a dona de casa lavando calçada ou conversando com a vizinha sem atentar para a mangueira escorrendo água ao léu...

PS2: foto tirada em Fernando de Noronha. Podia ser qualquer outra foto... e nem é água de beber, tipo assim, aquela que é objeto da discussão toda do dia mundial quá quá quá... mas que a água ficou linda, tem 5 a 6 metros de profundidade neste local, que eu mergulhei ai e que tudo tava perfeito nesse dia... Então postei esta foto mesmo.

BB King 20 de março de 2010 em Sampa

sexta-feira, 19 de março de 2010

PASSEATA 19/03/2010


Foto de Betânia Pirola : é ou não é... Romantismo puro, este enfrentar o Sr José Serra a alguns passos da eleição presidencial.... o pior é a categoria e suas justas reivindicações sendo usadas pelos dirigentes  da APEOESP para promoção e produção de propaganda. Vocês vão ver muito este filme no horário gratuito.

A foto foi originalmente publicada no sítio Olhares e  pode ser vista  aqui.

A faixa "Romantismo" está por lá desde o início do mês a promover uma belíssima exposição do MASP. A astúcia da fotógrafa é que promoveu a faixa a participante desta manifestação político/eleitoreira.

quinta-feira, 18 de março de 2010

HUMANOS

Pessoas têm,
Pessoas são.
Pessoas vem,
Pessoas vão.
Pessoas vêm,
Pessoas não.
Pessoas zen,
Pessoas... bem
Pessoas são pessoas...






IMAGEM: Laerte, originalmente na FOLHA, depois cristalizado por mim

quarta-feira, 17 de março de 2010

MR. AMERICA


ANDY WARHOL 



Quando: de ter. a dom., das 10h às 18h
abertura, sábado, às 11h
Onde: Estação Pinacoteca (lgo. General Osório, 66, Centro, SP, tel.0/ XX/11/ 3335-4990); até 23/5
Quanto: R$ 3 a R$ 6 (sábado, grátis)


PS: se você está na área a expo é imperdível. Se você está em um raio de até 500 Km, faça-me o favor e tire um final de semana. Sua alma agradece.

terça-feira, 16 de março de 2010

AMARELO MANGA

Um dia embaçado. Um dia em que tudo acontece, depois vem a noite (que é a melhor parte) e começa tudo de novo. Um outro dia, uma outra oportunidade para as coisas postas envelhecerem, desbotarem e perderem o brilho. Ser humano é estômago e sexo. O resto é coisa, é cerveja e comida de boteco... e tem mais: só os cães são fieis.
Levou nada mais nada menos do que 10 prêmios para casa, no XIII Cine Ceará, 2003, nas seguintes categorias: melhor filme, melhor diretor, melhor ator (Matheus Nachtergaele), melhor atriz (Dira Paes), melhor roteiro, melhor fotografia, melhor edição, melhor trilha sonora, melhor direção de arte e melhor figurino. 
Parece pouco para um filme de baixo orçamento? Pois senta que tem mais: Prêmio da Conferederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio como melhor filme do Fórum do Festival Internacional de Berlim, 2003. E, para terminar, ganhou o prêmio de melhor fotografia, no 7º Festival de Cinema Brasileiro de Miami, 2003.
Um filme de Claudio Assis, com Matheus já sabem quem, Jonas Bloch, Dira Paes e amor, Chico Diaz e Leona Cavalli entre muitos outros, excelentes pessoas. Cara, é o Brasil na tela, é o Recife na tela, é o subúrbio da tua alma amarelo manga, tudo assim, meio autêntico, meio clandestino, meio homem, meio menino em uma fotografia rabiscada, quase suja.
Não há como não lembrar de Baixio das Bestas, outro filme do mesmo Diretor, talvez por parecer mais do mesmo, ou não... Por ser tudo Pernambuco, ou não... Por ser tudo alma humana, ou não... Por ser real demais, isso sim...
Tudo isso com aquele jeito... do tipo crônica de Renato Carneiro Campos: “Amarelo é a cor das mesas, dos bancos, dos tamboretes, dos cabos das peixeiras, da enxada e da estrovenga. Do carro de boi, das cangas, dos chapéus envelhecidos, da charque. Amarelo das doenças, das remelas dos olhos dos meninos, das feridas purulentas, dos escarros, das verminoses, das hepatites, das diarréias, dos dentes aprodecidos… Tempo interior amarelo. Velho, desbotado, doente.” 
Neste filme, Amarelo é o dia, amarelo é o filme, amarelo é o Mercedes amarelo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

ORDENAÇÕES FILIPINAS



LIVRO II
TÍTULO LVI

Em que modo e tempo se faz alguuem visinho, para gozar dos privilegios de visinho

Visinho se entende de cada uma Cidade, Villa ou lugar, aquelle, que della, ou de seu termo for natural, ou em ella tiver alguma dignidade, ou Officio nosso ou da Rainha, ou de algum Senhor da terra, ou do Concelho dessa Villa, ou lugar, e seja Officio tal, per que razoadamente possa viver, e de feito viva e more no dito lugar e seu termo: ou se em a dita Villa, ou lugar, alguem for feito livre da servidão, em que antes era posto, ou for perfilhado em ella, per algum hi morador, e o perfilhamento confirmado por Nós: porque em cada hum destes casos he per Direito havido por visinho.
Seja também qualquer, natural, ou não natural de nossos Reinos, havido por visinho da Villa, ou lugar, em que casar com mulher da terra, enquanto hi morar, ou onde tiver maior parte de seus bens, com tenção e vontade de ali morar. E se dahi se partir, for morar a outra parte com sua mulher, casa e fazenda, com tenção de mudar o domicílio, e depois tornar a morar ao dito lugar, onde assi casou, não será havido por visinho, salvo morando hi per quatro annos continuadamente com sua mulher, filhos e fazenda, os quaes acabados, queremos, que seja havido por visinho.
E se algum se mudar com sua mulher e toda a sua fazenda, ou a maior parte della do lugar, onde era visinho, para outro lugar, não sera havido por visinho do lugar, para onde novamente se for viver., ate nelle morar, com sua mulher, e toda a sua fazenda, ou a maior parte della, continuadamente outros quatro annos, os quaes acabados, sera havido por visinho, e de outra alguma maneira fora dos casos declarados nesta Lei, nenhum podera ser havido por visinho, nem gozar dos privilégios e liberdades de visinho, quanto a ser exemplo o de pagar os Direitos Rezes, de que per bem de alguns Foraes e privilegios, dados a alguns lugares, os visinhos são exemplos.
E tudo o que dito eh, se guardará para serem havidos por visinhos as pessoas sobreditas: salvo se por Foral de terra for ordenado o contrário, porque então se guardará o conteúdo de tal Foral.
Porém, não he nossa tenção, que por essa Lei sejam em alguma parte tiradas as usaneas antigas das Cidades, Villas e lugares de nossos Reinos e Senhorios, per que os moradores dellas são haviods por visinhos para suportar os encargos e servidões dos Concelhos, onde são moradores. Poque quanto ao que toca a esta parte, mandamos, que se guardem suas usanças, de que sempre antigamente usaram, sem outra alguma inovação, sem embargo desta Lei.


PS: foto de Joaquim Pires Ferreira
PS2: as Ordenações Filipinas vigiram no Brasil por cerca de 300 anos até serem substituídas, em parte, pelo Código Civil de 1916, cuja vigência deu-se a partir de janeiro de 1917. Mesmo após a independência, um decreto do Imperador manteve a vigência da legislação lusa que ainda sobreviveu à Proclamação da República (1889)

domingo, 14 de março de 2010

UM DOMINGO ESPORTIVO...

Nada mal. Cedo, Formula 1 com nova dupla de ferraristas e novamente com o direito de ver o brasileiro de escudeiro de um europeu qualquer. E sempre tendo que ouvir Galvão dizer: "meninos, tragam as maquinas para casa..." Um dia a paciência acaba. Não fosse o Reginaldo Leme, já teria acabado. 
Depois, Formula Indy, pela primeira vez em Sampa e me matando de inveja, correndo na Marginal... Corrida muito louca, cheia de paradas e batidas. Tudo muito novo e interessante, desta vez com um brasileiro em terceiro, mas ainda no Podium.
O melhor do dia, no entando, ficou reservado para depois do churrasco: Estragamos a festa das crianças dançantes da Vila Belmiro. Ora se estragamos. 4 a 3 com direito a deixar de fazer pelo menos mais uns três. Crianças, ou melhor, Moleques da Vila precisam de educação e educação se consegue aprendendo lições. A aula de hoje, garanto, foi inesquecível. Podemos até nem nos classificarmos, mas só de botar água no chopp... estragando uma invencibilidade de onze jogos e calando aquele arzinho... Ahhhhhhh...



E falando em crianças, no dia de hoje comemoramos o primeiro ano da sobrinha, cujo pai coruja estava até inchado, de tanta felicidade...


PS: Fabiana Murer É OURO ! Como postou Juca Kfouri : Murer Maravilha!!

quinta-feira, 11 de março de 2010

NA PRAIA

Foi passear na orla. Queria aproveitar do feriado, da tarde de sol e sentir a maresia. Aquela brisa salgada e grudenta que sempre cura os males, do corpo e da alma. O barulho das ondas quebrando na areia, a algazarra das crianças, os boleiros e demais ruídos, todos se fundindo como se musica de orquestra fossem. Condução de Walter Smetak.  Na contramão vem vindo um kit completo. Água de coco, óculos escuros, havaianas e cigarro na mão. E ainda usa chapéu, uma graça. Tem seus cinquenta, talvez poucos anos mais e um pneuzinho sexy na cintura. Sua canga, deslocada, deixa ver as marcas de outro bikini, de outro dia. "Meu número", pensou enquanto impedia-lhe a passagem. Distraída, quase assustou com a abordagem, mas aceitou a oferta. A idéia de lavar a garganta com um chopp gelado sempre é bem vinda. Conversaram longamente, labirintos de palavras e frases, dentro do qual buscavam a aproximação de seus corpos, até o sol se por.
Nessa hora acontece o impasse. “Estou com frio e preciso trocar de roupa.” “Vamos nos rever?” “Dentro de meia hora, não mais.” E ela apareceu mais linda ainda. Tomou banho e se perfumou, lavou os cabelos e prendeu-os com uma fita colorida. Usava uma bata de algodão com algumas flores bordadas, jeans e rasteirinhas com brilho. Voltou a ter vinte anos. Os dedinhos dos pés, todos felizes. Seus olhos sorriam mais do que a boca. Tentava disfarçar o prazer da companhia, o prazer de se sentir desejada. Queria dar menos na vista, mas com aquele brilho nos olhinhos, era quase impossível.
Jantaram um peixe, arroz, molho e salada. Tudo leve, para não pesar o estômago e estragar a sobremesa. Foram passear e, em certo instante, as mãos se trombaram e a lua viu dedos entrelaçarem-se como naufragos que agarram um pedaço de madeira. Agarrando-se à vida. Foi tão intenso que acabou em beijo, quase suruba a céu aberto.  
“Meu ap é aqui perto...” pensou em voz alta e desculpou-se em seguida. Não queria, mas transpirava desejo, um tesão quase desesperado, uma secura alimentada pelos anos de separação. Duas almas aproveitando a circunstância. Não demorou muito e estavam rolando pelo chão da sala. O desespero dela foi domado, minuto a minuto, centímetro por centímetro, até o multiplo orgasmo. Com toques leves e outros toques. Aproveitaram-se em todas as posições possíveis. Quando ele caiu de boca e ela gritava feliz, pela terceira vez, notaram duas figuras em pé, junto da entrada em um típico contra-luz. A jovem, na casa dos trinta, segurando a menor pela mão: “Mãe!?” “Vó!?”.

quarta-feira, 10 de março de 2010

FUI PEGAR HOJE...


Hoje fui na Capital e, entre outros afazeres, aproveitei para ir retirar na bilheteria os ingressos comprados pela net... Adianto que, na data em apreço, estaremos flutuando, sem contato algum com o solo ou a realidade.

terça-feira, 9 de março de 2010

DIO, COME TI AMO

Taí! Você quer ver Cinderela na versão Ítalo-Espanhola do final dos anos sessenta? Aquele filme que lotou as salas de cinema com a bela Gigliola Cinquetti? Pois vá correndo, se vire, faça a sua locadora ficar louca, percorra os Sebos de sua Comarca. Faça um bem à sua alma. A música título de Domenico Modugno é cantada no início e no final do filme. No mais, Gigliola desfila todo o seu talento e repertório neste Musical Romântico rodado em belas locações entre Barcelona e Napoli em 1966, incluindo um passeio por Pompéia. Eu garanto que vale a noite.

ROMANCE

Livro, levo e leio...
como quem se livra
do seu próprio meio.
Minh'alma se calibra,
enquanto me livro,
mergulhando em ti,
de problemas que dariam um outro livro,
ambientado na colonial Paraty.

Sob a luz da lua,
no entanto,
às páginas prefiro a pele tua,
presença, encanto,
minha razão de ser,
assunto predileto,
meu amor, por ti viver...
e assim ser completo.

IMAGEM: uma transformação a partir de uma foto dela em Arituba, que pode ser vista na minha Gaelria do Olhares:
http://br.olhares.com/mulheres_sao_de_venus_foto2612738.html
POESIA: http://recantodasletras.uol.com.br/poesiasdeamor/672516 , meu outro espaço de criação.

segunda-feira, 8 de março de 2010

A FOLHA


A FOLHA

A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra,
a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?

Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor
de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?

A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.

Carlos Drummond de Andrade


IMAGEM: http://br.olhares.com/OciremaSolrac

domingo, 7 de março de 2010

CONE SUL


O que tinham em comum o Brasil e o Chile no início dos anos setenta? Tudo e nada, ao mesmo tempo. Vamos por partes: 1) o Chile curtia a sua aventura socialista com Allende no poder enquanto nós sofríamos os piores anos da ditadura militar, os anos de chumbo; 2) Com a eleição (sic) de Geisel (74) começamos a abertura lenta e gradual e eles com o golpe de Pinochet (73) iniciaram os piores anos da história chilena; 3) Entre mortos e feridos, ambos saímos desta, não sem antes contemplarmos nossos ditadores de óculos escuros e uniforminho, igual caricatura de filme de Woody Allen.
Muito bem, dois cineastas, Cao Hamburguer e Andrés Wood, resolveram contar estes anos na ótica de garotos, pré-adolescentes na casa dos dez aos doze anos. Mauro e Pedro, cada um em seu país e à sua maneira, não entendem a razão da viagem de seus pais. Vivem mundos de faz de conta invadidos pela realidade dos adultos. Enquanto Mauro é envolvido pela Copa de 70, brilhantemente inserida na narrativa, Pedro sobrevive a sua maneira às tentativas de socialização levadas a cabo pelo Padre Mc'Enroe diretor de um Colégio de classe média em Santiago. Ambas as produções são cuidadosas, com detalhes de época impecáveis e possuem diretores nascidos no início dos anos sessenta e que por conseguinte, adicionaram bem as suas próprias lembranças ao que depois passaram para as telas.
A mim, particularmente, me tocaram muito ambos os filmes, uma vez que vivi de perto o mundo de Mauro, na mesma São Paulo, na mesma época e com a mesma idade. Filho de pais estrangeiros, com amigos no exterior, tive também muito acesso a informações não censuradas e pude acompanhar com um pouco mais de nitidez os acontecimentos daquela época. Não deve ser difícil de inferir que ambos os filmes mexeram na alma e no baú das emoções.
IMAGENS: 1) capas dos respectivos DVD's; 2) à esquerda Costa e Silva, à direita Pinochet (propositalmente nesta ordem) kkkkkkkkkkkkk

It's Complicated

Comédia romântica é de encher o saco. Me perdoem as moçoilas, mas é a pura verdade. Agora, quando a turma que se envolve na empreitada é capitaneada por Meryl Streep e Alec Baldwin até Steve Martin consegue se comportar a parecer ator de verdade. Quem assina a tramóia toda é Nancy Meyers, a mesma de "Alguém tem de ceder" (Jack Nicholson e Diane Keaton), ou seja, é do ramo e não precisa provar nada para ninguém. O problema é se você espera mais deste filme do que do anterior. Mas se você for ao cinema para se divertir, dar algumas risadas, derrubar pipoca no colo da vizinha, engasgar com o refrigerante na cena do flagrante... beleza, você fez um bom investimento. 
O filme se desenvolve de maneira bastante morna até que a divorciada resolve ser amante de seu ex-marido. Todas as situações dai resultantes são hilárias e valem as atuações dos protagonistas. Até os atores contratados para encher cenário se saem bem. O melhor mesmo é que o final não é aquele pelo qual se torce. 
A autora explicou que resolveu falar de divórcio, mas não do seu lado amargo e, ao longo do desenvolvimento do roteiro, percebeu que estava a discorrer sobre como algumas mulheres não conseguem lidar plena e definitivamente com rompimentos e relações desfeitas. Resumindo, são as mal resolvidas, aquelas para quem a relação na verdade nunca acaba, as inspiradoras desta comédia.

sábado, 6 de março de 2010

TRÂNSITO

Saiu na FOLHA DE SÃO PAULO que o trânsito de SAMPA na hora do rush tem a velocidade de uma galinha. 
Pô: desmereceram a galinha!






IMAGEM: Galinha brava lá numa loja do Embú das Artes

sexta-feira, 5 de março de 2010

Johnny Alf


Apesar dos meus ouvidos serem descalibrados, absolutamente anti-musicais, ou seja, sem capacidade alguma de afinar nada, adoro ouvir boa musica e posso dizer que tenho uma cultura musical razoável. Com a minha mãe aprendi a conhecer os clássicos e a Ópera, com os amigos e meu próprio nariz a reverenciar o Rock, a Tropicália e todas as suas variantes. Mas, quem realmente formou minha cultura musical (muito antes dos Festivais da Record), me deu bases de boa poesia e me mostrou o que este país e a nossa língua tem de mais rico (MPB) foi o radio da Dalva. Dalva foi a empregada lá de casa desde que me lembro até que me dei por gente e eu passava minhas horas atrás daquela criatura e seu radio, cujo dial apresentava desde Aracy de Almeida e Dalva de Oliveira, passando por Ataulfo Alves, Noel Rosa, Pixinguinha, Dolores Durant, Cauby e incontáveis mestres, inclusive a Bossa Nova com todos os seus expoentes como Johnny Alf.
Estes sons e estas letras impregnaram as primeiras camadas do meu cérebro e da minha alma de forma tal que não sei viver mais sem este alimento, ou seja, poesia e música. Outro dia ainda, não tem um ano isso, eu fui ao SESC Pinheiros ver Johnny Alf comemorar seus oitenta anos juntamente com Alaíde Costa e Emílio Santiago. Foi emocionante e ao final aplaudi Johnny e seu piano até que me brotasse um calo na mão. Passei dias a andar em nuvens e nem sabia que ali se apresentou um homem muito doente e que estava a se despedir de nós. Pois Johnny se foi ontem (04/03) e nos deixou inúmeras pérolas dentre as quais uma que eu simplesmente venero... pois foi com ele que eu aprendi que o inesperado pode nos trazer uma surprêsa.


IMAGEM: Eduardo Anizelli / FOLHA

quinta-feira, 4 de março de 2010

SOROCABAE RERVM GENTISQVE CVLTVS IN AEVVM (*)

Nossa... preciso me penitenciar, talvez ir a um Confessionário. Ainda não sei ao certo. Bom, Confessionário não vai dar mesmo... não vou a um desde os sete anos de idade. Lá se vão quase cinco décadas... e meu joelho não é lá grandes coisas. Penitência? Talvez, na medida em que me proibam de tomar sorvete ou coisa parecida.
Na verdade, a culpa nem foi minha, portanto, não tenho que nada nem coisa nenhuma, mas o "pessoal" não sabe e vai cobrar. Fato é que na manhã de hoje (04/03), recebi um convite para participar de Sessão Solene em homenagem aos 349 anos da Câmara Municipal de Sorocaba e dos 56 anos do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS). Coisa pra maluco nenhum botar defeito. Receber um convite doze horas após a festa é brincadeira de mau gosto. (a reunião foi 03/03) Ou será que foi azar? Pode ter sido sorte também e isto eu nunca vou saber. Algumas vezes o Universo conspira e você nem fica sabendo, outras a coisa é tão óbvia que você nem dá bola, esquece até de agradecer. Mas as forças (ou a Força Jedi) estão sempre por ai, zelando... Minha vó dizia que eram os Anjos da Guarda, mas este termo, além de fora de moda, não tem a modernidade suficiente para que meus filhos entendam. A bem da verdade, meus filhos já são adultos e não precisam entender nada. Eles que se danem neste mundão de Deus e se liguem na tomada por conta própria, isto sim.
Ao pessoal do IHGGS, minhas sinceras desculpas.
Sem saber de nada disso... eu estava no cinema vendo o maravilhoso  "O Segredo dos Seus Olhos", de Juan José Campanella, com Soledad Villamil, Ricardo Darin e Guillermo Francella. Um filme de amor, de paixão, de reviravoltas e de suspense, costurando uma trama com potência máxima.
O melhor do cinema portenho perto da sua casa. VÁ!


(*) Culto das Coisas e da Gente de Sorocaba para sempre.

NANOSEGUNDO

NO rádio tocava “eu sei que eu sou.... bonita e gostosa.... eu sei que você... me olha e me quer...” e ela dançava, pulava, parecia uma Frenética, até que esbarrou numa das mesinhas da sala de sua avó e seus olhos viram, em câmera lenta, um raro exemplar de vaso, da Dinastia Ming, se espatifar em incontáveis caquinhos, que depois se espalharam pelo piso de mármore italiano. Parou como quem brinca de estátua, travada, vendo o gato da família, ainda assustado, se achegar para cheirar um dos cacos. O gato sentou e depois de olhar para ela, começou a se lamber, totalmente alheio à merda que acabara de acontecer. Após alguns segundos, resolveu dar um leve tapa num caquinho côncavo que passou a rodopiar pelo mármore liso, sendo prontamente perseguido. Um espetáculo de pulos, saltos acrobáticos e sons cerâmicos. Ela continuava ali, paralisada. Tinha acabado de jogar sua parte da herança no lixo. Os sonhos que acabara de sonhar ao olhar para o vaso, antes da fatídica vontade de dançar, foram para o lixo também. Três eram os irmãos, três eram os vasos. A menos que desse cabo de um de seus irmãos, quem tinha ficado sem vaso era ela, mesmo que o gato inocente fosse condenado. Coisa que não seria nada simples, pois ela era a única que estava em casa e o gato nestes últimos dez anos sempre perambulou pela sala. A vida é assim mesmo, tudo é capaz de mudar, radicalmente, em um simples nanosegundo. Sonhos desmoronam, oportunidades se esvaem, sortes se definem. Cavalos selados passam e você não tem tempo para pensar. Ou reage e pula, ou assiste. E a propósito disso tudo, veio-lhe à mente uma frase de famoso financista americano, constantemente citado pelo avô, cujo nome nunca lembrava: “sorte é quando a preparação encontra a oportunidade...”e emendou com sua filosofia de adolescente: “para o bem ou para o mal...”. Desligou o rádio, foi buscar a vassoura e limpou a área. Tomou um banho, vestiu a melhor roupa e foi assistir o Pôr do sol...


IMAGEM: é claro que não é um vaso Ming. É só uma caneca de fazer chá, comprada lá na Liberdade... Acho que nunca vi um vaso Ming, de verdade, daqueles que se pode por a mão, saber que tem zilhão de minutos de vida, UAU, nunca pensei nisso!

quarta-feira, 3 de março de 2010

ILHA GRANDE


Hoje, três de março, é a data em que Graciliano Ramos foi em cana. Não importa o ano, isto é atemporal, apesar de que você finge que se importa com a dor do morto. Dor do tipo, “amor morto, motor da saudade”, mas Ditaduras e Ditadores têm destas coisas e prender escritores é uma delas. Daí, maluco passou o diabo, comeu o pão que o dito-cujo amassou e, passados muitos anos, escreveu “Memórias do Cárcere”. Não contente em lê-lo, fui visitar a Ilha Grande, a Ilha cárcere, o paraíso que foi inferno. Por lá andou também Origenes Lessa, o ilustre filho de Lençóis Paulista e autor de “O Feijão e o Sonho”. Por lá andaram muitos presos políticos, outros apenas presos, sem política alguma. Ou seja, voltando ao assunto, fui visitar o carcere do “Memórias”. Você chega naquele pedaço de paraíso e logo sente um frio na espinha. Dois cárceres, um mandado demolir por Carlos Lacerda, outro implodido por Brizola. Ambos lá, como fantasmas de um poder maior que todos nós, maior que a vida, maior do que a destruição. Não há como esquecer já que é o cárcere da memória. 

IMAGEM: BAIXAKI (ou coisa parecida com Wallpaper)

terça-feira, 2 de março de 2010

UNIDOS ATÉ QUE...

Sentado na varanda, esperando o pôr-do-sol e a mulher. Todas as tardes essa era a rotina do casal. Ele chegava primeiro e ajeitava as cadeiras não sem antes colher umas flores e colocar no vaso em cima da mesa. Ela vinha depois e trazia duas chicaras de chá, rodelas de limão, mel, geléias e torradas. Antes de tudo, era obrigatório que se colocasse um Jazz suave, como música de fundo. Mesmo quando estava nublado ou chovendo torrencialmente. Nestas ocasiões, digamos sinistras, o casal se certificava, pelo jornal, da hora exata do pôr-do-sol e se recostava na cadeira imaginando-o. Nada mais fácil, além de interessante exercício de concentração. Aprenderam algo com isso, pois outro dia foram a um auto-cine abandonado e ficaram imaginando ver um filme. É claro que o filme já tinha sido visto inúmeras vezes e estava quase decorado, mas, mesmo assim, foi intenso. Saíram suados do episódio. O que esqueceram de contar, pois era omitido propositalmente de qualquer interlocutor que se dispusesse a escutar em detalhes esse episódio, é que fizeram amor no meio do filme. Apesar de não haver filme nenhum, como já dissemos.
Com o passar dos anos o casal se acostumou de tal maneira a imaginar até viagens, que mal sabiam distinguir os episódios reais de seu passado daqueles outros, os imaginados. Por vezes já não sabiam se o episódio tinha acontecido ou se tinha sido imaginado, mesmo que só parte dele. E qual parte terá sido? Quando? Realidade e ficção tinham se misturado de tal maneira que já não se sabia mais se realmente se conheceram um dia ou se um era a fantasia do outro.
Mas, enfim, Mirtes amava demais o Dimas e fazia-lhe todas as vontades e vice-versa. Certo dia, ele sismou que queria comer a jaca de uma frondosa árvore que havia visto na Ilha Bela. O nome da ilha já não deixa mentir e, realmente, mais parece uma ante-sala do paraíso. Conceituações e gostos pessoais à parte, para Mirtes essa estória de ante-sala não colava. Ela tinha ido na Escola Dominical quando pequena e sabia que se o paraíso tinha ante-sala esse cômodo era o purgatório. Para corroborar a sua teoria ela apontava o número absurdo e excessivo de borrachudos daquele lugar. Ninguém, jamais, a convenceu do contrário. Mas para Dimas, desta vez, não havia a possibilidade de se comprar um pedaço de jaca no supermercado e sair imaginando tratar-se da fruta daquela determinada árvore. Puro preciosismo, segundo Mirtes, mas fazer o quê. A única coisa que se podia fazer era comprar as passagens para São Sebastião e depois usar a balsa ou a lancha e aportar na ilha. Foi exatamente o que fizeram. Ao chegarem no Hotel, Dimas foi logo preenchendo a ficha em nome de ambos e pediu cama de casal. O porteiro estranhou, afinal só tinha uma mala, uma pessoa. Tudo bem o cidadão querer cama de casal, tem gente que é espaçosa para dormir, mas colocar dois nomes na ficha, isso lhe pareceu incomum. Sem papas na lingua, mesmo porque deveria prestar contas ao patrão, o porteiro perguntou: “a sua senhora chega mais tarde?” Dimas ficou surpreso, balançou a cabeça como quem não vê necessidade de explicar o óbvio e se foi para ocupar o número 214. No caminho já foi debochando do funcionário e quando chegou no quarto gargalhou a valer com o comentário da Mirtes, absolutamente pertinente e bem humorado. No dia seguinte, quando esperava sua amada para o café, Dimas encontrou um amigo lá dos tempos do primário, sim, ensino fundamental um dia chamou primário e ginásio. Descobriu que o amigo era dono de restaurante na Ilha faziam já muitos anos. Este, ao vê-lo, foi logo declarando seus pesar pela morte da Mirtes, também colega daqueles tempos. Dimas ficou revoltado: “a Mirtes não morreu! Ela está comigo, aonde quer que eu vá”... “Sempre”. O amigo desculpou-se e foi embora. Na saída comentou com o porteiro do Hotel: “amava tanto a mulher que não aceita a morte dela e já se fazem vários meses”. Mirtes aproveitou o ar da praia e dormiu até mais tarde. O que o casal não sabia era da missa em sufrágio de suas almas, que seus filhos e amigos mandaram realizar. Fazia exatamente um ano do horrível acidente ferroviário. O país tinha ficado chocado, imaginem a família, ao perder assim, dessa forma inesperada e absurda, dois dos seus mais queridos. Se Mirtes e Dimas soubessem, talvez tivessem ido. Afinal, a família toda reunida, hoje em dia, é coisa rara.