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sábado, 22 de agosto de 2009

UM CONTO: "Animais, uns no cio, outros não..."


A cena final, com Halle Berry e Heat Ledger, em “A Última Ceia” (Monster’s Ball), gerou uma discussão entre o casal, assim que se iniciaram os créditos. Aqueles nomes pequenos, ilegíveis e borrados que insistem em passar à nossa frente, de baixo para cima, após o final do filme. Um dos dois apertou o ”pause”, enquanto se ouviu Roberval dizer: “É realmente uma cena especial... uma interpretação de cair o queixo e envolver a alma... tanto da Halle”... pigarreou, mas conseguiu dar seqüência: “da personagem, como da mulher que ali, naquele exato instante, se entrega”. Ele até que tentou disfarçar, explicar, mas Verônica, além de ter visto o filme ao lado dele, era inteligente o suficiente para saber que o Roberval, ainda um namorado, mas quase marido, estava com tesão. E era pela Halle Berry. Uma outra cena, a da trepada, no chão da sala, entre o sofá e a mesinha, mexeu até com Verônica. Independentemente de ele ter razão na interpretação, na expressão do rosto dela, de seus olhos, na questão da cena final, pois a Halle até ganhou um Oscar. É claro que não podia concordar com aquela parte da entrega. Que entrega? A personagem assume a situação, isso sim. Fincou o pé: “Você não se faça de sonso! Eu vi, EU vi! Você ouviu bem? Tava duro!”, e apontou o dedo. “Não adianta tapar com o travesseiro, EU VI!”.Quanto problema, sempre a mesma coisa. Será que alguma vez podia acontecer uma merda e só depois outra? Sempre tudo junto. Seus pensamentos começaram a rodopiar. Não estava a fim de briga, queria virar para o lado e dormir. Podia até trepar rapidinho, ainda mais depois de assistir o que assistiu, mas discutir, isso não. Tinha contas a pagar e ainda faltava algum para que fechasse o mês. Não sabia de onde tirar, mas tinha algumas opções. Ia sair cedo e não podia dormir no sofá, nem a pau.“Olha, meu amor, amanhã, eu prometo, amanhã eu te deixo falar o quanto você quiser, amanhã eu durmo no sofá... mas é que hoje eu preciso dormir bem, tenho um dia pesado, por favor...”. Olhou-a com aquele olhar que só ele tinha. Nunca falhou. Mas como tudo tem uma primeira vez, levou um sonoro tapa na cara. “Seu miserável, em vez de admitir logo, que ficou com o pau duro por causa da atriz, vem com conversa de besta. Antes tivesse feito papel de cafajeste e tentado com beijinhos e juras de amor, repetindo que me ama e que jamais acontecerá de novo...”. Bem que, logo após o final do filme, ele teria até feito amor. E ela quer beijinho. Mas agora, nem beijinho. Estava acabado, com todo esse stress e o bate-boca. Toda essa adrenalina, agora é que não vai mesmo. Quanta discussão inútil. “Mulher é tudo doida”, pensou alto. Foi o quanto bastou para ser expulso, não só do quarto, como do apartamento, com enorme alarido e confusão. Parecia um palhaço, ofegante, segurando um travesseiro, calçando apenas o chinelo do pé esquerdo, absolutamente mais nada sobre o corpo, ali parado. Olhou em volta e se viu pelado em um corredor que tinha mais cinco portas, além da sua. Quatro apartamentos, uma escada de emergência e um elevador. Será que uma das portas ainda era a sua? Quem mandou assistir esse filme pelado? Na cama? Mas como ia saber que depois de uma cena com cadeira elétrica ia ter a gostosa, daquele jeito? Como? A Verônica é que tinha passado na locadora, ele não. Queria ver o filme e dormir, portanto, foi ver o filme pronto para dormir ao lado da mulher. Só isso. Mas que coisa mais idiota, o que será que foi que deu na Verônica agora? Como vou sair dessa? E se aparecer alguém? O que eu digo? O que faço? Seus pensamentos não paravam, turbinados que estavam, quando ouviu aqueles barulhos típicos, que anunciam a chegada do elevador. Para seu absoluto espanto, parou no mesmo andar em que ele estava e a porta foi logo abrindo, assim, sem cerimônia nenhuma. Tapou-se como pôde e deu de cara com a vizinha nova, que ainda não tinha trazido os móveis todos, pois ia dar uma festa de inauguração. Precisava de espaço. Segurando a bolsa em uma mão e o saco do supermercado na outra, já se acercando, exclamou: “Que coisa linda, uma recepção dessas, eu não esperava, nem sabia que merecia”. Assim que destrancou, empurrou Roberval para dentro. “Acabei de mudar”, anunciou toda animada, ao mesmo tempo em que tratava de depositar suas coisas nos seus devidos lugares. “Eu sei...”, respondeu ele, espremido entre o travesseiro e a parede, ao lado da porta. “Claro, claro, e você saiu de onde, assim?”. “Sou seu vizinho, Roberval, prazer”, disse, enquanto estudava alguma rota de fuga, mas absolutamente envergonhado da explicação que não sabia como dar. A moça, não querendo que lhe explicassem nada e sem nenhuma intenção de deixar o cidadão escapar, trancou a porta e emendou: “o prazer é todo meu, Gleice, e será maior ainda, assim que eu tirar tudo...”. Saiu espalhando a roupa ao seu redor, para todo lado. Foi surgindo diante do Roberval, revelando-se a cada peça retirada. Quase saída de revista, daquelas propagandas de sabonete cremoso. Morena risonha, rechonchudinha e com marcas de fio dental. Roberval, a esta altura muito longe do travesseiro e da parede, enfeitiçado, nem lembrava que um dia tivesse conhecido alguém com o nome de Verônica. Que conta? Que sair cedo? Que nada! E fizeram festa.Verônica leu a Veja, deu um gelo, depois foi abrir a porta e aplicar o último sermão. Sermão bem dado, com dedo em riste, que termina no exato momento em que os trovões viram beijos, na cama. Tinha ficado com dó e também queria aproveitar do tesão da cena. Abriu a porta e esbugalhou os olhos: “Roberval?”. Falou com as paredes. Emudeceu e girou o corpo, olhou em todas as direções. Ficou, ali parada, muda e incrédula. Não era possível que não estivesse lá, pois pelado não iria a lugar algum. Enquanto ainda estava segurando a porta, pensativa, escutou o gozo dele e os gritos dela. Urro que era só dele, aquele bem dado, o do exato instante do prazer. Aliás, assim, fazia tempo que não escutava. Silêncio daqui, grito de lá. Não tem como errar: “É dele e vem daqui! Agora, eu mato!”. Logo depois se ouviu a campainha do 34, o som estridente de um dedo grudado.

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